domingo, 3 de janeiro de 2010

Confrontos

Tenho vindo a considerar seriamente que deveríamos ter tido a sensata possibilidade de nascer com um botão de “slow motion”. Sinceramente, nem tenho vindo: posso afirmar com toda a certeza que nunca tive pressa de crescer. Agora, deparo-me com uma séria melancolia pelos tempos que já lá vão.
Começo pela saudade: tenho-a de brincar furiosamente; de esconder os brinquedos debaixo do tapete quando mos mandavam arrumar (e atingir uma felicidade tremenda por ter sido mais eficiente que a empregada); de ter medo dos monstros debaixo da cama; de acusar a fada dos dentes de roubo e injustiça; de poder descarregar adrenalina licitamente nos meus primos; de correr como uma desvairada, cair e esfolar os joelhos como se não fosse nada; de querer trepar às árvores mais alto que os outros e ter um tombo e respectivo galo em proporção (as quedas de hoje doem mais por dentro); de me empanturrar de iguarias sem ter medo dos quilos a mais; e de pintar as paredes da sala de estar com autênticas obras-primas.
Sinto tanta falta: de acordar a casa toda às seis da manhã para ver os desenhos animados; de não ter medo sequer do infinito, excepto do escuro; de só querer adormecer noite após noite no ombro do meu pai; de ser a menina dos olhos do meu avô; de fazer a sesta em cima da barriga dele; das nossas tropelias de melhores companheiros; de conseguir permanecer a noite toda acordada na tagarelice (não é que já não fale muito); do fruto proibido ser ainda mais apetecido do que agora; do coelho da Páscoa; de fugir a sete pés dos rapazes que gostava (isso também se mantém igual); e de ter chorado dias a fio com a desilusão pelo Pai Natal não existir.
Tão cedo – só se não quiser – não volto a: ser sereia na banheira; ter o cabelo mais longo de todos graças às saias-peruca da minha mãe; maquilhar-me – qual Van Gogh – com os seus batons por estrear; montar tendas aconchegantes na sala; ser piloto de rally dos carrinhos das compras; imaginar que o Mundo é todo meu; fazer do sofá palco e palácio – cenário para as minhas cantorias –; esmagar carritos de corda para simular acidentes (agora passei para a parte prática e mais perigosa) –; desmontar tudo o que me intrigava para dirimir os meus porquês de esfinge; e a treinar beijinhos na boca nos coitados dos peluches.
Apetece-me regressar ao ponto de partida quando: não tinha segredos; resolvia mistérios de brincadeiras que me roubavam completamente o sono; podia ser Sininho, Bela Adormecida e Cinderela; preferia o príncipe encantado ao lobo mau; chorava buliçosamente baba e ranho por crucialidades dos crescidos; lia um livro por debaixo da colcha com uma lanterna por já passar da hora do Vitinho; tinha a coroa e o ceptro do reino do “Não fui eu”; e não me obrigavam os meus odiados compromissos.
Nestes anos de faz-de-conta, também fui aprendendo que mentir para não magoar não era mentir de todo, e, inclusive, correr contra o tempo também não é pecado. A necessidade de adrenalina dos alvores da adolescência eterna e tentadamente mantida coabitam em contínua permanência comigo. É mutável, contudo cresce como uma erva daninha mal aparada, conforme à vontade de voltar a ser inconsciente e ter a consciência disso.
Não me venham com as sátiras da beleza de todas as idades. Não me acusem de padecer do síndrome do menino dos collants verdes. É esta vontade, é este o sonho, é esta a mágoa que tenho com um Cronos que dos rebentos se alimenta, que preservo na minha caixa de Pandora. É minha, como disse e repito, e guardo nela o que quiser. E bato o pé, e refilo até rebentar, e estrabujo com os braços, e rabujo com os dentes, como a menina mimada que tanto quis ser.

3 comentários:

Luís Gonçalves Ferreira disse...

E vais continuar assim: A Nádia. Com todas essas recordações e seu peso actual sobre ti, incluindo a saudade. Digo-te: Ainda tens muito dessa meninice em ti. Descansa. Ainda não perdeste a tua identidade e os meus 20 anos ainda não me chegaram ao cérebro.

Beijo!

Diana Machado disse...

UIII onde isso já lá vai!!!Como eu te compreendo.
Ao contrário de ti, sempre tive pressa de crescer.
Agora arrependo-me! Dar tempo ao tempo, isso sim!

Apesar de todos nós termos uma faceta de criança (espero mante-la!), a consciência impera nas nossas decisões.

"OH TEMPO VOLTA PARA TRÁS..."

kisses
p.s: nós somos crinças, basta tira uns 10 anos e uns centimetros e uns kilinhos (é só isso que falta) heheh

Jonas disse...

O teu nome está mal boneca. Devia antes ser "Nádia Tapete Voador" ;)