sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago

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Morreu Saramago, aos 87 anos, numa ilha distante, desértica, de território espanhol. Disse, sempre, que esquecer-me de Portugal seria esquecer-me do meu próprio sangue. O nosso génio pequenino sempre se habituou a não prezar os génios nacionais e até a expulsá-los, por falta de garantias. Aprendi, com o tempo, a separar os Saramago comunista, político, do Saramago escritor, humanista, realista, cru e nu. Tinha uma visão global do mundo que amedrontava o portuguesismo mediano. Tenho noção disso. Colocou cães a lamber rostos de pessoas, anjos a oferecem favores sexuais a humanos, raparigas bruxas que viam de estômago vazio, Reis a oferecerem elefantes e tirou Cristo num Evangelho novo. Escreveu Cadernos e alimentou um blogue com o mesmo nome. Viveu intensamente e foi polémico. Começou a escrever tarde e morreu na data que Alguém lhe destinou. Saramago, o meu escritor, foi-se, porque os génios também morrem e perecem. É normal. Ordinário. Tenho muito de Saramago na minha forma de escrever e nos olhos que vêm sem poder sobrehumano nenhum. Insisto, Saramago via a realidade de outra forma. Era diferente. Tinha uma postura diferente. É com uma profunda mágoa que vejo mais um vulto da nacionalidade partir.
Agora não valem museus, nem homenagens, nem estratagemas de propaganda política. O que foi feito foi feito. Felizmente, foi inserido no programa nacional escolar em vida. Viveu o que tinha para viver. Escreveu o que tinha que escrever.
Até sempre, Saramago. Até sempre! 

Luís Gonçalves Ferreira

2 comentários:

ac disse...

Um homem genial , adorado por tantos e incompreendido por tantos outros, vai deixar saudades !

Descansa em Paz , Saramago !

Dylan disse...

José Saramago não era menos português por não pôr a bandeira à janela na véspera de um evento desportivo. Acima de tudo, a sua essência era ibérica. Convém dizer que só saiu de Portugal devido à ostracização de Sousa Lara, comprovada agora com o episódio político revisionista da não presença de Cavaco Silva no seu funeral. "Viagem a Portugal" é reflexo de amor e do encantamento que sentia pelo país, pela sua beleza e cultura, pela classe trabalhadora, espelhada na sua identidade, mesmo que isso significasse ir contra a ideologia do seu partido, contra a maioria religiosa, contra o politicamente correcto. Para o seu espírito inconformado, a morte é pouco relevante. Como diria Saramago, "o fim duma viagem é apenas o começo de outra".