domingo, 20 de dezembro de 2009

Diário de viagem

Perdida por entre quatro paredes de um pequeno imenso Universo, encontro-me – reencontrando-me – em plenitude com o ser e com o estar, num Éden feliz, afastado e inatingível ao destino dos comuns. Contemplo uma avassaladora paisagem já sentida, mas só agora descoberta, onde o som ensurdecedor das cascatas embebede-me de energia e orientação; limpidez e harmonia em estado líquido que me lavam os sujos sentidos, assolam-me o desafogado espírito, e domam-me os desassossegos da inquietude.
É uma terra de gentes como outra qualquer. “Não olhais aos nossos pecados, mas à fé da nossa Igreja”, emudecem os sinos da capela ao lado; ordenam-se-lhes os céus, cumprem assim a Sua vontade. Não os posso censurar: é o acreditar que nos move. Contudo, quem pode omnisciente ditar o que deve ser proibido? É um lugar nosso e também do Credo, onde ainda não foram professadas as verdadeiras preces do Homem citadino. Com o vagar sempiterno destas paragens, condenam-nos os pesares terrenos com a inocência e crueldade de criança, e a experiência adunca de um velho do Restelo. Sem dolo nem palavras esdrúxulas e caras, ferem – suspeito que sabem que o fazem. Observam-me divertidamente os gestos como se de outra constelação proviesse: o beber do café, a face sonolenta, a delicadeza à hora da refeição, o tique do cigarro, e a pronúncia da minha cidade. Zombam os meus hábitos e eu praguejo os deles; porém, estes dias preencheram-me o ânimo de uma amena sensação de pequenez de corpo, que me escasseava por entre os vales de onde eu vim. Conservarei com carinho a sombra da sua companhia, ao mesmo tempo tão caricata e tão solene.
De manhã, no alto dos ermos das montanhas temos, quando chegamos, a sensação de supremacia. Hoje fui, por privilégio de posição, rainha do mundo visível: o máximo dos nossos lugares ficou-me na sola dos pés. Pés estes que – terna e placidamente, sem dúvida – esvoaçaram em saltos de fantasia e plenitude, saltaram em vales de delícias cândidas e caducas, bateram ferozmente em mares revoltos, e vestiram-se de leves pliês de bailarina em recônditos perenes.
Pela aurora, as mãos apoderam-se de um piano que, qual tapete voador, me transporta aos sabores plenos da infância achada, da saudosa inconsciência. Em êxtase, lembrei o quão prazer me dá saber tocá-lo. Envaidece-me, o triste de pó camuflado.
À noite, transeunte de corpo e alma por ruelas, iluminadas só por ébrios focos de Lua, destinadas a um riacho, vagabunda do meu essencial, vejo os altos claros da aldeia esplender, com a glória de uma matriarca de trono alheio. É um lugar encantado. Há aqui sensações cósmicas, ilustres ocupantes dotadas de uma névoa que percorre toda a imensidão do espírito, que não deixam pensar, que não deixam agir, que não deixam claramente ser. Vim para esquecer ser por uns breves dias, voltar a ser projecto de vida, regressar à escuridão e segurança do ventre materno.
Na falta de saber, escrevo. Escrevo o que sinto porque só assim diminuo a febre de sentir. O meu sentir é louco, imaterial, antagónico ao que digo; assim, faço paisagens escritas à mão do que sinto – como uma louca que lança as cartas para procurar o seu Destino. Cheguei quase a castigar-me, culpando-me pela fúria que me instigou a pegar na caneta, prometi-me paulatinamente que não o faria. Tenho estados destes, apocalípticos de contradição. Mas, se não o positivasse, como abrandaria este caos, esta vontade de dominar a minha assaz fera de desenhar as minhas heresias? É instintivo: por vezes, anseio escrever como quem respira, como quem aceso arde, como quem mendiga para sobreviver, como quem chora incessantes lágrimas sabidas inutilmente derramadas.
Paz. Procurei-a por entre diários passados, sem a vislumbrar. Reli-os novamente. Sacudi-os aflita, pensando que tinha ficado emaranhada nas linhas entrecruzadas; rebusquei sobre a mesa, na ânsia que se tivesse extraviado por entre papéis amassados; procurei pelo tapete, pelos cantos dos sonhos esquecidos. Olhei para o tecto, na esperança que ela tivesse sido levada pela vento, e estivesse pousada num dos tantos momentos calcados; revirei os bolsos, rebusquei os cantos do sofá e nada. Despi-me vaga e cuidadosamente, não a tivesse eu guardado sobre o coração.
O Sol teima em me nascer cada vez mais imperioso sob o meu quintal, e eu outrora invejei quem se soube estender a contemplá-lo. Estou a aprender-te, caro amigo. Rodeio-te indecisa sem saber qual dos teus quentes raios agarrar, como um lince artimanha a sua presa. Receio que te desvirtues dos teus singelos mistérios – se não os tiveres, não te quero. Alicia-me, vá lá. Fortalece-me como sempre tão cinicamente fizeste. Eu aguento-me agarrada à margem: os meus telhados de vidro mostram-te que não abraço o medo. Resiliências que me são intrínsecas, é o que lhe chamam estes que te adoram e que se adornam vaidosamente de ti.
Abandonei as imagens a carvão no lixo da estrada. Estou à mercê desta paisagem; inspira-me. Traz-me sede, como se num deserto sem mapa me encontrasse. Posso ser tudo o que sonho. Tenho asas! Vislumbro uma tímida estrela a cintilar sobre a minha janela. Vou roubá-la ao céu e guardá-la junto da paz, que tranquei dentro do peito.

Por aí,

Nádia

8 comentários:

Gonçalo disse...

:D

Que bela escrita! :)

E eu ainda que não consegui meter uma imagem no cabeçalho do blog :

Tedim;) disse...

Uma escrita rica em sentimentos fortes. Gostei!
Há momentos na nossa vida, que necessitamos de uma pequena volta dentro do próprio pensamente - introspectivo.
Decididamente és a minha ESCRITORA de eleição.
E é com todo gosto que passo a ser assídua a este blog.

*

Jonas disse...

Ainda n viram nada!!! Esta mulher qd apanha uma caneta vai tudo à frente. Q saudades destas coisas, parece q te estou a ouvir narrar td o q está aqui descrito. Tens uma forma autêntica de ver o q te rodeia, aliada a uma forte sensitividade/sensibilidade.

"Na Natureza, nada se perde, tudo se transforma." Lavoisier

NÁDIA, ESTÁS DE VOLTA!! :D

Dá notícias :( mudaste de mail? soube do blog pelo facebook!

Anónimo disse...

:D [*]

Luís Gonçalves Ferreira disse...

Lindo, lindo e magnânimo e simplesmente a melhor coisa que li tua nos últimos tempos.

Ai! Transportaste-me para um Mundo paralelo.

Beijo :D

Miguel (miguimi) lol disse...

Olá pestinha! You're the best, mas isso já passaste a vida a ouvir. Não faças disto só hobbie, já a prof te dizia. Gostei de te ver no outro dia no armazém. Sempre linda e a trocar-me o passo todo ;p Ainda tás no pipa? no outro dia fui lá e não te vi.
Blog agradável. venho ca mts vezes. BJ

Anónimo disse...

UIIII que já estou com medo!
Se antes da bateria estar carregada, já era um furacão agora que é que virá???

Piece and love: you deserve babe!

kisses
Dra Cromo Filosofica

Nádia Dias disse...

Oláááááá! :) Desde já obrigada a todos!
Regressei a casa finalmente, mas só vim dar uns beijos às minhas mulheres e restabelecer forças, e sigo outra vez, com outro destino, para "laurear a pevide" à boa maneira.

Kisses and hugs!