terça-feira, 6 de outubro de 2009

A Diva do Fado


É meu e vosso este fado
Destino que nos amarra
Por mais que seja negado
Às cordas de uma guitarra

Sempre que se ouve o gemido
De uma guitarra a cantar
Fica-se logo perdido
Com vontade de chorar

Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que a recebi

Ó gente da minha Terra
Letra de Amália Rodrigues

(excerto)


O Fado canta-nos. Amália Rodrigues, a diva do Fado, incorporou-se de nós e fez-se eterna. O povo português tem a saudade cravada no peito e na mente. Amália mostrou-se cheia de mágoa e tristeza, vestiu-se de preto e marcou a música portuguesa para a eternidade. Acusada, difamada, mas endeusada. É assim, por analogia, que nos mostramos enquanto povo com identidade e alma. Pensemos como são tantos os que, na praça, se glorificam e depois se cospem, por inveja ou incompreensão. Até o próprio Cristo, que nem português era, de nós sofreu.

Vozes recentes dizem que Amália vivia per si, sem o Estado Novo a instigar-lhe a fama. Os nomes amigos põe-na no estrangeiro, constantemente, alegando que não conseguia viver famosa ali, naquele sítio velho e anacrónico, comandado como mesa de Xadrez (e que vivia a preto e branco, qual a coincidência), sem tempo para xeque-mate. Eu acredito. (Sabe melhor acreditar que sim.)

Independentemente disso, o Fado é nosso. E a canção mais portuguesa de Portugal não é sem Amália, como o reggea não se conta sem Bob Marley. Amália tinha magia na voz, transformava os poemas com o instrumento mais importante da biologia humana. Há mérito em Amália e na guitarra portuguesa. O Fado por eles embalado eleva-nos ao sonho e à melancolia. Se a língua nos demonstra, a cultura nos define, a política nos molda e as descobertas nos entorpecem, o Fado caracteriza-nos. Não necessariamente o Fado de Amália, mas todo o Fado que conte o fado deste (outrora) afamado povo.

Ontem, por gralha linguística, disse: Para sempre Amália, a Diva da "pop". Queria dizer diva do Fado, é certo. Mas se Amália foi amada pelo povo, se o cantou, marcando-o para sempre, levando a nossa identidade áquem e além fronteiras, não podemos deixar de a considerar popular. Ser-se pop é ser-se do povo. Amália Rodrigues tinha Portugal no corpo e no trejeito.

Adormecemos, faz algum tempo, na penumbra das Glórias passadas. Fernando Pessoa queria um Quinto Império, no início do século passado. Hoje, queremos culturalizar a língua e o feitio, através de um certo europeísmo emergente. Aceito a evolução e o esbatimento de certas tradições em razão da modernidade e da evolução positiva. Contudo, não me agrada esta vergonha e preconceito em relação ao género musical que melhor trabalhamos. O Fado é nosso. Como a saudade o é e como a língua portuguesa sempre será. Somos nós em potência que vivemos ali, naquelas letras. Não só pelos temas, mas, sobretudo, pelos poetas que as escreveram. São portugueses. Pensam e sentem como nós. Se isto é Fascismo, então não sei o que é o desprezo pela identidade e pela Cultura. Há política no acto de se ser asno e pateta? Deixemo-nos de hipocrisias e de novos-riquismos. Amemo-nos. Fá-lo-emos na base do amor-próprio que se transformará, por consequência, num amor pelos outros e pelo seu talento.

1999 - 2009
Amália. Sempre Amália.
Até à próxima,
Luís Gonçalves Ferreira

1 comentário:

Nádia Dias disse...

Amália, a diva do POP, diga-se...