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sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago

http://www.radioenciclopedia.cu/2009/noviembre/04/saramago.jpg

Morreu Saramago, aos 87 anos, numa ilha distante, desértica, de território espanhol. Disse, sempre, que esquecer-me de Portugal seria esquecer-me do meu próprio sangue. O nosso génio pequenino sempre se habituou a não prezar os génios nacionais e até a expulsá-los, por falta de garantias. Aprendi, com o tempo, a separar os Saramago comunista, político, do Saramago escritor, humanista, realista, cru e nu. Tinha uma visão global do mundo que amedrontava o portuguesismo mediano. Tenho noção disso. Colocou cães a lamber rostos de pessoas, anjos a oferecem favores sexuais a humanos, raparigas bruxas que viam de estômago vazio, Reis a oferecerem elefantes e tirou Cristo num Evangelho novo. Escreveu Cadernos e alimentou um blogue com o mesmo nome. Viveu intensamente e foi polémico. Começou a escrever tarde e morreu na data que Alguém lhe destinou. Saramago, o meu escritor, foi-se, porque os génios também morrem e perecem. É normal. Ordinário. Tenho muito de Saramago na minha forma de escrever e nos olhos que vêm sem poder sobrehumano nenhum. Insisto, Saramago via a realidade de outra forma. Era diferente. Tinha uma postura diferente. É com uma profunda mágoa que vejo mais um vulto da nacionalidade partir.
Agora não valem museus, nem homenagens, nem estratagemas de propaganda política. O que foi feito foi feito. Felizmente, foi inserido no programa nacional escolar em vida. Viveu o que tinha para viver. Escreveu o que tinha que escrever.
Até sempre, Saramago. Até sempre! 

Luís Gonçalves Ferreira

sábado, 23 de janeiro de 2010

Eu tenho um Eufemismo (e vocês?)

O Direito Internacional ocupa-me os dias e as horas. Depois de uma maratona a resumir, organizar, qualificar e desesperar, fiz uma capa gira e fui imprimir os apontamentos. Mandei o senhor da reprografia imprimir frente e verso para parecer menos matéria. Dizer que se tem 122 páginas para decorar é mais bombástico do que afirmar que moram ali 61 folhas para memorizar. É tudo uma questão de nomes e de recursos de estilo. Hoje, sem querer, acabei de estilizar um comportamento com lírica pura. Hoje, sem querer, elaborei um Eufemismo. Agora, cada vez que me referir aquele troço de estudo vou-lhe chamar de "O meu Eufemismo".
Ora, caros leitores, vou ter com O meu Eufemismo. Vamos enlouquecer mais um bocadinho os dois, aprender coisas giras e curiosas, e depois voltámos. Quer dizer, volto. O Eufemismo vai ficar na secretária, quieto e riscado, como quem grita por mim.
Sim, estou oficialmente a descompensar. E daí? Vocês nunca tiveram um Eufemismo de estimação?

Até à próxima,
Luís Gonçalves Ferreira (e o seu Eufemismo)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Desabafo

"Já reparaste que és um rapaz novo e estás a ficar impossível de se aturar? Já não se pode falar para ti. Estás sempre a reclamar!"
P'la minha Mãe

Eu não era assim nem estava sempre irritado. Eu sorria, todos os dias, e era mais amigo dos outros. Eu era mais sensível ao meu redor. Agora, fruto de alguma coisa que desconheço, estou diferente. Para pior. Para muito pior. E isso deixa-me triste e cabisbaixo. Estou intimamente triste comigo próprio. Tudo, porque este não é o Luís, o meu Luís. Transfiguro-me com o stress que o curso causa em mim. Esta época vital estará, provavelmente, a ser das mais complexas da minha pequena existência. Não sei como lidar com isto. Não tenho guia de instruções para me compreender, porque já não sou eu.
Triste. É assim que estou. Infelizmente.
Perco, assim, a minha luz e energia próprias. 
Sou eu que tenho que me reencontrar, eu sei. Mas, por favor, façam um esforço para não exigir muito de mim. Sou só um. Um só corpo. Não me subdivido nem multiplico, apesar de alma, essa vagabunda, se estar a modificar, de dia para dia, como quem despe uma pele e encarna outra.
Hoje, confesso, estou francamente pequeno cá por dentro.

Luís Gonçalves Ferreira

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Português médio

Quando quiser falar com um português e não o conhece, falha-lhe acerca do estado do tempo.
Perceberá quem ele é e se confia em si.
Depois, sinta-se à vontade e fale-lhe dos seus filhos e do seu cônjuge. A seguir contar-lhe-á a vida toda, inclusive do património de doenças que herdou dos pais. É toda uma árvore genealógica desenrolada em boca calma.
Contudo, não o tome como amigo nem conhecido. Existe uma grande probabilidade de lhe dizer mentiras, principalmente em relação aos bens materiais que possui. Se é classe-média baixa dir-lhe-á que vive numa barraca, que não come nem dorme decentemente e que o seu patrão é um explorador. Se é de classe-média não o encontrará num autocarro nem em outro transporte público. Existirão grandes probabilidades de ser funcionário do Estado ou ter uma pseudo-intelectualidade de novo-rico. Se for de classe alta não aparecerá à sua frente, porque eles não aparecem, nem lhe falará dos bens. Andam de Mercedes como os de classe-média, vestem-se como eles, mas comportam-se com distinção. A não ser que seja um novo-rico emigrante em França, Venezuela ou Canadá. Aí ostentará o ténis de marca, o carro de marca, as fotografias da família feliz na mansão enorme que fizeram por cá.
Ser português é viver de estereótipos e falar do tempo.
Eu evito-me a ser português por isto. Mas todo o português odeia um outro que lhe ensine qualquer coisa nova. Odeia, porque lhe cresce um febre por dentro, como quem se sente pequeno. O português médio respeita médicos e juízes, fala mal dos licenciados (malogrando-lhes o destino numa caixa de super-mercado) e detesta ricos. Somos socialistas em gema. Somos um povo de Esquerda que, mais tarde ou mais cedo, vai levar este burgo ao colapso moral, social e financeiro.
Hoje apetece-me destilar alarvidades, porque estou cansado.
Luís Gonçalves Ferreira

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Casamento entre pessoas do mesmo sexo

Hoje, em Portugal, depois de um projecto de Lei do Governo, a Assembleia da República aprovou, com a maioria de Esquerda, a legalização do Casamento Civil entre pessoas do mesmo sexo. Damos, enquanto Estado democrático, um importante passo para a tolerância social e o alargamento dos direitos, liberdades e garantias. Ao Estado, ao contrário do que se argumenta, não cabe acentuar discriminações negativas, que vedam direitos. Ao Estado não lhe devem restar funções de moralidade que negam a realidade efectiva das Pessoas, que são o seu Alfa e Ómega. Pelo simples facto de nascerem têm Dignidade.
O Casamento Civil é uma instituição jurídica que permite o acesso a uma ramificação de direitos privados, entre elas o da adopção. Parece-me pouco lógico que, ao admitir o Casamento Civil, se vede a adoptação de crianças. É como dar uma árvore e proibir o acesso a um dos ramos. Como consequência, este meio-direito concedido acabará por ser, mais tarde ou mais cedo, considerado inconstitucional por fiscalização concreta do Tribunal Constitucional (se não for vetado pelo Presidente da República e precipitada a fiscalização abstracta). Assim, a adopção, para além de já ser possível por via monoparental, acabará por se ver legalizada, por exclusão previsível da norma que, no actual diploma, a proíbe.
Como é comum nas políticas Sócrates, este diploma apresenta-se como uma aberração jurídica, que revela uma clara premeditação dos meios-sentidos e das entre-linhas das proposta. A adopção, a curto-médio prazo, será permitida. Aí o Direito já não será reflexo da vontade racional das pessoas, mas sim um instrumento de resposta a lobbys. É uma conjectura minha, é certo.
Se perguntarmos na rua acerca do assunto, provavelmente os portugueses concordarão com o acesso  dos gays aos direitos de herança e protecção social após a morte, típicos do Casamento Civil.  Quanto à adopção, penso que todos tomam consciência das dificuldades e problemas sociais que a criança  adoptada incorre ao ser incluída numa família "diferente". A desestruturação dos modelos sociais de família acarreta o empobrecimento de valores (extra e intra-jurídicos) que o próprio Direito reconhece como importantes vectores de desenvolvimento social, porque o ordenamento nacional encontra-se repleto de conceptualizações de origem extra-jurídica.
Assim, como imensos portugueses, fico insatisfeito com esta Lei aprovada no Parlamento. Penso que a proposta da bancada Social Democrata, que criaria uma nova figura jurídica - a União Civil (em muito inspirada na resolução inglesa para o mesmo problema discriminatório), faria positivar a opinião geral da Sociedade civil. Com tal instituto, os direitos civis vedados eram abertos aos homossexuais e a desfiguração da instituição Casamento não seria levada a cabo. Evitar-se-iam inconstitucionalidades adjacentes a algumas normas do projecto Socialista aprovado hoje.
Ao Estado não cabe a função moralizadora da Igreja, assente em verdades meta-físicas e dependentes de crenças particulares. Uma discriminação negativa (não se tratava o desigual de forma desigual, mas sim o igual de forma desigual) deve ser sempre combatida, espelhando-se realidades e convulsões sociais emergentes, que só engrandecem a amplitude democrática do Estado e das suas entidades. É pura aceitação da diversidade. Nada mais do que isso...

Sem mais,
Luís Gonçalves Ferreira

Ps.: Somos o nono país a aprovar o Casamento Civil entre pessoas do mesmo sexo.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Fitas políticas

O Jornal i descobriu hoje que a oposição pode legislar legalmente. Afinal não é só o Primeiro-Ministro que tomou conhecimento desta "novidade" jurídico-constitucional.
A Assembleia da República, composta por mais partidos além do de Governo, tem como função primacial a Legislativa. Engraçado como a democracia portuguesa anda adormecida pelas maiorias absolutas. Pensa-se que a Assembleia da República é um mal-maior e o Governo algo tirânico que não deve resposta aos outros órgãos de Estado. Leia-se a Constituição e entenda-se o que lá está escrito. Ainda não temos partido único, caros senhores. Há democracia plural de modelo ocidental, baseada no debate e na discussão de argumentos (algumas vezes com o circo dos oradores e tudo, à maneira Grega do antigamente).

Até à próxima,
Luís Gonçalves Ferreira 

domingo, 4 de outubro de 2009

Portugal Republicano

Um dia destes, no calor das canecas, finos e chouriços assados, dei por mim num típico ambiente inóspito de Portuenses sedentos de um feriado, feriado esse que imaginam vagamente que calha a 5 de Outubro. Para eles fim-de-semana prolongado. Para mim não. O que pode ter originado esta enraivecida tentativa funesta de categorizar a nossa História que, não valendo menos do que as outras, acreditem ou não, começa a ser comummente vilipendiada. Aquando isto, resolvi elaborar este rascunho minimamente esclarecedor acerca da Repúplica do nosso jardim para o mar plantado, não vá Camões (do Panteão à Barca dos Prazeres) pedir nacionalidade brasileira.
Portugal.
Um país re-europeizado e na senda do século XXI, que se presume per si curado dos seus demónios tradicionalistas, retrógados e imperialistas, vocacionado antes para repensar o seu universalismo criador de novos mundos que demos ao Mundo, com os quais convivemos em séculos de odisseias e cuja língua herdaram dessas longos convívios, tropicalizando essa tal "última flor de Lácio" de que falava Olavo Bilac.
As últimas décadas do século XIX foram percorridas por sucessivas crises, às quais a monarquia constitucional não foi capaz de responder - novas ideologias no seio dos grupos intelectuais levaram à criação de partidos que fugiam à área monárquica, o desenvolvimento industrial, e as disputas internacionais pela posse do continente africano, que levaram ao Ultimato Inglês, ferindo o orgulho nacional. Após o Regicídio de D. Carlos e respectivo príncipe herdeiro, sobe ao trono D. Manuel II que, apesar da tolerância face à oposição, não conseguiu superar a monarquia por mais de dois anos.
O 5 de Outubro de 1910 trouxe consigo a esperança de ver concretizado o ideal republicano de liberdade e de justiça, contra os privilégios consentidos por uma monarquia decadente, aliada à Igreja Católica. A liberdade, o municipalismo, o associativismo, a assistência social, o ensino e a laicização da sociedade, são algumas das bandeiras do ideário republicano. No entanto, a instabilidade política que se segue à derrocada do sidonismo faz com que a República não resista à fogueira que ateara contra católicos e monárquicos. No dia 28 de Maio de 1926, o general Gomes da Costa leva a cabo, a partir de Braga, um movimento onde conta com o apoio do Comandante Mendes Cabeçadas, a quem o presidente Bernardino Machado entrega o poder, pondo fim à 1ª República. Dão-se os alvores do primeiro Ministério da Ditadura Nacional.
Acarinho imortalizar os heróis que fincaram as ruas dos meus promenées. Citando W.E.B du Bois, "Chamam-nos Causas grandiosas - a libertação das mulheres, a educação das crianças, a supressão do ódio, do crime e da pobreza - todas estas e muitas mais. Mas chamam com vozes que significam trabalho, sacrifício e morte. Possamos nós descobrir maneira de cumprir a missão".
Abraços e pares de estalos para os troglóditas que não perderam nem perderão preciosos momentos de non-facere a ler isto.
E bom feriado!