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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

GAS'África



http://www.gasafricaporto.page.tl/

"No final do caminho, apenas me perguntarão: «Amaste?»
E eu não direi nada. Abrirei as mãos vazias e o coração cheio de nomes."


Candidatos a acompanhar-me, há? :)

domingo, 6 de junho de 2010

Espartilhos, Corpetes e Crinolinas

Durante a minha vida vivi com corpetes justos, espartilhos apertados e crinolinas pesadas. Oram mudavam os formatos, ora as cores, ora as cordas: finas ou mais espessas; largas ou mais justas. Incomodativas, sempre foram, essas fartas locomotivas. É a existência numa asfixia de moldes, frutos de tempo e espaços próprios. As pessoas correm, a olhos vistos, em todas estas justuras que sufocam a beleza de se viver livremente. Não são paredes de tijolos, mas feituras humanas, medíocres, das cabeças, que viram práticas-produto. Luís XIV usava saltos altos. Confortáveis não eram por certo. Certo será que as crinolinas, os corpetes e os espartilhos, das damas da sua corte, também não o eram. 
Todos vivem (e não sou só eu) com adereços sociais inúteis, desconfortáveis, que não são de cimento, nem de barro nem de pano nem de madeira nem de arcos nem de varetas. Nem de nada que se possa descrever em linhas de homens.
As coisas que espartilham, encorpetam ou crinam a vida não são as óbvias coisas que o vosso e o meu imaginário arquitectam para esta valsa de adereços de moda. Falo, aqui, de moldes, modelos, tigeladas de barro que nos metem, desde pequenos, pelo cérebro dentro. São preconceitos, arquétipos, brocardos. São moldes. E mais moldes. E mais cimento e barro.
"Olha que ficas como o teu tio." 
"A tua irmã é mais inteligente que tu". 
"Se não fizeres isto arrependeste". 
"És um mau filho". 
"És má pessoa". 
"És mau namorado". 
"És inferior à pessoa X, mas superior a Y". 
"És". 
"És".
"X é e tu não és".
É a sobranceria do ser, pelos outros. Somos comandos, postas fixas de carne, em desejo de prazer e de felicidade, meramente sujeitas às prestações dos outros. São moldes. Como as tigelas que nos dão o caurdo da ceia. Feitas e refeitas vezes sem conta, na mesma esquemática ignorância de não se pensar que se empobrece o outro assim. Modelos. Chuvas de comparações. Premissas. Prestações. E modelos. Sempre me senti emparedado nos outros, mesmo entre pessoas que nem conheci. E isso desagrada-me. Sempre me destabilizou, mas não tinha voz para refilar nem dizer nada. Aceitei. Fui chamado de "burro". Cresci. E repulso comparações.
Repulsa. Nojo. É isso.
E cresci. E vejo o Homem como um ser, primariamente isolado, sem roupa, nem apetrecho nem ancas nem vestidos nem crinolinas nem espartilhos. Topo-lhe humanidade. Dou-lhe respeito. Não o comparo. É um ser. Precisa de crescer. É particular. Nada de paredes. Nem muros. Nem bem nem mal. Nem ocidente nem oriente. Cansei-me de formas. Fadiga egoísta. Logo depois, enformo (os outros) num bolo, fruto da observação. Não comparo nem subestimo. Conheço.
Afinal de contas, Deus criou o homem e a mulher nus e eles tocaram-se, corporalmente, e tiveram prazer. Viram o outro. Não existiam espartilhos nem corpetes nem crinolinas antes de serem verdadeiramente conhecedores de si. Era correcto o silogismo se eles não fossem logo emparedados entre as pernas do Deus do Bem e as coxas do Deus do Mal. Era lógico o pensamento até serem vestidos, de moldes, que eram folhas de preconceito. 
Modelos. 
E mais modelos. 
Paredes e muros destrutíveis.
Eu próprio sujeito-me à sujeição dos outros aos meus moldes.
Por respeito à minha história, não me comparem. Estimem o que sou e não o que querem que seja. Mimem o que está cá, se for isso que o coração pede. Deixem-me ser, livremente, sem Espartilhos, Corpetes e Crinolinas.


Sem mais,
Luís Gonçalves Ferreira

domingo, 14 de fevereiro de 2010

"Não ames uma ilusão"*

Este dia para além ser dos namorados é do amor em estado absoluto. Na vida quotidiana as máscaras são mais que reais e a inverdade vivencial de alguns transforma as relações num penar quase certo, mais ou menos moroso, mas porém inevitável. Defendo sempre, ao início de todas as relações, que a verdade seja posta em cima da mesa. Não a verdade sobre quem se aparenta ser, mas sobre o eu que é efectivamente. As relações acabam por choque dos génios e não por falta de concordância relativamente à comida que se vai fazer para o jantar. Os gostos, atitudes, pensamentos e comportamentos antes de serem do foro externo, passam pelo cunho pessoal (e íntimo) da razão e do próprio sentir da pessoa. A imagem que pomos cá fora pode ser completamente fabricada. Contudo, ainda não somos donos da fábrica dos sentimentos e dos contextos, pois não somos proprietários das pessoas que os plantaram, sem querer, dentro de nós.
No dia do amor eu peço, acima de tudo, que se amem por dentro, no templo interior, e só depois aquilo que exteriormente vos rodeia. É um amor-próprio baseado no auto-conhecimento, no saber ser,  que irá permitir, a curto prazo, amar mais e melhor. Só quem se conhece se pode dar ao displante de querer conhecer mais que uma farsa. Relações construída de telhas de vidro e pés de barro estão condenadas, de per si, ao fracasso, por mais que o sentimento seja forte. As telhas de vidro e o barro são mentiras interiores. Só conhecendo o que está cá dentro conseguimos saber daquilo que, concretamente, somos capazes de fazer.

Bom dia de São Valentim,
Luís Gonçalves Ferreira

* Postagem surgida de um comentário feito, por mim, no blogue Sair das Palavras na mensagem homónima a esta.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Espelhos

Esta tarde fria de Inverno, que podia ser como outra qualquer, fez chover como se houvesse chovido desde a primeira página do Mundo. O dia, no entanto, não vai prometer mais que o próprio dia, por saber que tem decurso e fim. Seguro um Porto na mão, e a devoção na outra, enquanto vou escutando a voz do optimismo na primeira pessoa. O que ontem me ficou no ouvido pode tender a dividir a razão entre a subtil diferença entre dar uma mão ou acorrentar uma alma, ou pode ser tão-só uma singela passagem de uma vida alheia, nada tocante a sensações terceiras. A mim, o estranho seria se ao lado passasse.
“Enquanto subia a mesma rua que me levava ao trabalho, todos os mesmos dias, só conseguia pensar que a felicidade que estava a sentir era irreal”. Uma potência em espírito com esta magnitude, ao ser assim tão esguia e escorregadia, consegue, quase como por milagre divino, transportar-nos para um lugar belo, iluminado, revitalizante, onde as cores são vivazes, os cheiros frescos, os sorrisos eternos, os pés flutuam, entre uma infinidade de sentidos mais despertados. Já foi alcançada de todas as formas, feitios, recortes e moldes; não sou eu que a aqui a vou dirimir. Convido-me é a desenhá-la por um ângulo, a meu ver, deambulante e frio, como o rasto molhado que ela deixa quando se esvai. Amor que com amor se paga.
Basta-me olhar para o meu lado direito e constatar o que constatado está. Tornamo-nos tão sonhadores e contemplantes concretizados quando temos os dois pássaros na mão, que vamo-nos vaidosamente cativando a nós mesmos ao contemplá-los, sem lacrar a gaiola dourada. A ave de Minerva que ontem me foi despertada entristeceu-me, ao acordar-me da insónia que protesta por querer sorrir mais. A minha ave, mais do que coruja, é gaivota. O meu olhar penetra na escuridão dos que tudo vêem e pouco conseguem fazer com isso, e levo-o comigo com as asas do vento para longe. A estória que me despertou hoje acabou mal. Infelizmente.
Passamos metade da corrida a considerar que o que temos entre os braços não está ao nosso alcance; e a outra metade a vê-la partir. Escondemo-nos atrás do Cronos para esquecer, confiando que este seja um comboio sem volta, e que o bilhete seja só de ida, sem ingenuamente sabermos que este só leva o corpo. O resto fica preso à recordação, e vive nela como se carne se tratasse.
É atroz a falta de poder que temos sobre algo tão volátil, e o tempo encarrega-se de a tornar efémera, ao mesmo tempo que a grava em mármore branco e caro. Por não ser corpórea, não a conseguimos laçar no espaço pretendido, nem despertá-la quando necessitamos, acabando por perder quase tudo o que é vital para sobreviver; pois nesta incessante quimera não vivemos condignamente – ela limita-nos à mera e inócua sobrevivência. Se fossem visíveis na areia inexplorada, os nossos passos seriam rasos e tímidos, e rapidamente apagados pelo mar. Com o receio de se estar a provar mais do que aquilo que se pode ter, prendemo-nos os movimentos e o livre arbítrio sobre nós próprios, e permitimos que nos sugue lentamente o ânimo, a plenitude, o êxtase inicial. O imenso poço habitado pelos nossos profundos desejos, os quereres mais ambiciosos que o ouro, vão-se tornando passo a passo vago sopro do que não ousou viver, mudez do que não pôde sentir, murmúrio inútil do que não quis pensar.
E aí a felicidade vai-se. Como o vento que não quis ser soprado, como o dito que não foi dito, como o castelo de areia que não se conseguiu formar, como a história onde não se entrou, como uma carta que não foi enviada, ou como um livro que não se conseguiu acabar de ler…
O fim que visionáramos com olhos lassos volverá em adágio e desaparecerá por certo do horizonte. De tanto e tão pouco viver, só o rascunho guardamos; e de tanto olhar, tornamo-nos em outros que não somos. Fujamos de nós então.
Ou é este o espelho por onde nos queremos talhar?

domingo, 20 de dezembro de 2009

Coisa qualquer



When I was a young boy,
My father took me into the city
To see a marching band.
He said, "Son when you grow up,
would you be the savior of the broken,
the beaten and the damned?"

Welcome to the Black Parade
My Chemical Romance

Um sonho negro, volátil, completamente volitivo. Uma excursão da morte carregada de melancolia, medos e ódios ancestrais. São tesouros de um povo. Jugos podres de cadáveres, desses corpos sem vontade nem apetite sexual. Na penumbra da Glória, vive-se na obscuridade e na submissão. Ao sol somos brilhantes, mas a luz própria apaga-se. Nas trevas da noite, onde a luz natural se devia ver, o pavor trabalha e malha sobre os sorrisos, sem piedade.

Esta minha instabilidade irrita-me profundamente. Ora sou sol e depois lua, ora sou luz e depois treva, ora sou Rei e depois escravo de mim. Tento arrancar o espírito a ferros frios, de dentro para fora, sem crer no invés. Não consigo. Mordo-me por dentro, fustigo-me, navalho-me, magoo-me. São espinhos de carne, cheios de sentimentos negativos e de memórias recalcadas. Não serei capaz de sonhar com fadas e maravilhas? Este corpo potrificado não deixa nem quer novas coisas. Vomito-me nas palavras, sem tempo para reflexões. Dedos à goela e acendem-se as chamas da interioridade. Sou luz novamente. Exorcizo-me, exteriorizo-me, extravaso-me assim. Depois da negritude vem a branquitude, onde a discricionaridade entre os extremos é graduada em cinzas e cores estridentes. Entre os dois pólos sou. Entre os dois cantos fui hoje, aqui, mais uma vez. Sou complexo. Sou-o no extremo, daí a vossa incompreensão.

É a parada negra repleta de camas e estandartes de caveiras e ossos. Acendam-se as tochas, desçam os capuz, tapem a face, sejamos um só, mais uma vez, como se o corpo de pouco valesse. Alma sem corpo não existe, com excepção feita às massas despersonalizadas, mas cheias de valores comuns. O valor de cada, enquanto Ser, está metido em frases pomposas, feitas pela classe dominante. Deus fugiu e não quis assistir a isto. Não são estes os Filhos do Homem.

Ergam-se as bandeiras. Afiem-se as espadas. Saquem-se das trompetes e dos canhões. Esqueçam-se as dores e o sangue. Era assim que eu queria sobreviver. Sem mim e vazio das tristezas que me assolam... Tudo seria mais fácil. Muito mais simples.  

We'll carry on.  Because the world will never take my heart. We'll carry on.

Sem mais,
Luís Gonçalves Ferreira

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O amor também mata...

Russian Roulette
Rihanna



... e quanto não mata mói. Que o diga Rihanna e uma das melhores músicas da sua carreira. Saiu debaixo do guarda-chuva doutrora e ficou madura, pelo menos musicalmente. Russian Roulette é incrivelmente dramática e bem escrita. O teledisco está bonito e transparece essa carga melancólica. Acabadinho de sair, este é o segundo single de Rated R, o novo álbum da RiRi, a ser lançado a 23 de Novembro deste mês.

Até à próxima,
Luís Gonçalves Ferreira

terça-feira, 10 de novembro de 2009



Poema do silêncio

Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.


Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.

José Régio

Algumas das minhas manifestações de eleição!

Um até já e um beijinho! *

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Muros e Blocos

http://fc09.deviantart.net/fs32/i/2008/212/0/7/Muro_de_Berlim_e_sua_historia_by_Vydor.jpg

O Muro de Berlim caiu antes de eu nascer. O Mundo só me haveria de conhecer um mês depois, aos quinze dias de Dezembro. Não fui vítima de uma Europa dividida fisicamente, mas aprendi que existiu, cá da periferia do pulmão da Europa dividida, uma divisão ideológica feita entre papéis, no alto-mar, lá no final da Segunda Guerra Mundial. Diferenças ao canto da História, o muro da vergonha era a cisão entre dois mundos, feitos de pólos de dominação, agravados nas descolonizações de outrora, perpetuado pelas armas e as não-Guerras que, não obstante, fizeram os desígnio do Globo, encaminhando-o na História. Os países de Leste parecem ter recuperado daquela corrupção astronómica que os abalava e da máquina comunista de enriquecimento de algumas classes dirigentes (qual sociedade capitalista?). Os países Ocidentais viveram os 30 Anos de Ouro, até à crise dos anos '70, onde uma outra divisão de blocos, a do Primeiro e Terceiro Mundo, se viu nítida, precipitada pelas cabeças dos blocos Capitalista e Comunistas, com razão e sentido lá no Médio Oriente, num espaço entre o Egipto, Jordânia, Irão, Libano, Mediterrâneo e o petróleo.

Hoje, com quase 20 anos de existência, tantos como os que se vergam sobre o muro de Berlim caído, estou cá e vejo. Observo centenas de quilómetros de outros muros da vergonha, entre o México e os Estados Unidos, na Faixa de Gaza ou na Cisjordânia, em Ceuta ou Melilla. A felicidade que hoje falsamente sentimos não deve fazer esquecer este pedaços de terra que reflectem o conflito entre Estados, que se fazem agravar nas pessoas e se projectar nas falsas utopias. A Berlim de hoje continua dividida, por certo. Não há muro, mas existem clivagens que nenhuma governação conseguiu quebrar. O comunismo não é modelo, mas esta hipocrisia entre estados não pode continuar a sê-lo, por mera hipótese do acaso. Aclamar uma igualdade que não existe é o mesmo que beber sol e comer chuva, sem espaço para ignorâncias e desconhecimentos.

Eu, Europeu Ocidental, não consigo sentir orgulho destas comemorações. Depois de Berlim, existe um Mundo inteiro tolhido pelas divisões com arame farpado. Não são os sistemas que fazem os muros. São as pessoas. Maxime, por compactuarem com as fantochadas que se lhes adiantam no olhar. A culpa não é do Capitalismo ou do Socialismo, de per si, mas antes dos seres que lhes dão razão, por serem a realização física dos teoremas ideológicos.

Até à próxima,
Luís Gonçalves Ferreira