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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Um reflexão de Verão

Não voltei à idade dos porquês e para ser sincera não queria.
Não quero mudar de curso. Nunca quis Psicologia.
Não quero acrescentar nada ao definido, até porque correria o risco de criar uma tautologia.
Contudo, talvez por não ter mais nada do que fazer para além de praia, esplanada, comer e dormir, tenho-me indagado sobre comportamentos humanos. Bem, não são todos gerais. Assumo que alguns só verifico em mim.
A pergunta que me fiz mal saí de casa foi: porquê que as pessoas preferem atravessar a estrada fora da passadeira, sabendo que a 2 metros têm uma ao seu dispor? Eu sei (e se sei!) que existe o risco de se ser atropelado atravessando-se na passadeira, mas parece-me que a probabilidade de atropelamento é bem maior se for fora dela. Para além do facto de não existir indemnização.
Porquê que nos sentimos embarassados quando um conhecido volta a aparecer passados 5 minutos de o termos cumprimentado? A verdade é que não sabemos o que fazer. Voltamo-nos a despedir? Parece um pouco repetitivo. Limitamo-nos a dar um subtil, mas envergonhado sorriso.
Porquê que quando nos sentimos desconfortáveis num determinado ambiente, temos tendência de mexer no cabelo?
Porquê que quando passamos por uma montra na rua, muitas das vezes não estamos a avaliar o seu conteúdo, mas a admirar a nossa figura? São nessas alturas que pensamos que poderiamos ter escolhido o conjuntito com mais calma na noite anterior.
Porquê que não compramos determinada peça com a desculpa que a poderemos fazer numa melhor altura? O mais provável é que quando finalmente esse momento surgir (normalmente é na hora a seguir, ou nas piores das situações, no dia seguinte), essa peça já não se encontrar disponível. Estou a falar de um objecto, mas penso que esta situação se poderá aplicar a uma panóplia de casos da nossa vida. Como sempre digo, mais vale nos arrependermos daquilo que fizemos. No entanto, não prestem atenção para o que eu faço, mas para o que eu digo!
Porquê que quando não estamos a prestar a mínima atenção para o que um indivíduo nos está a dizer, simplesmente acenamos com a cabeça?
Porquê que quando queremos fazer figura de intelectual, pomos o dedo indicador na boca como sinónimo de atenção e inteligência? A verdade é que nessa altura, passa-nos tudo pela cabeça, menos a informação que nos está a ser dirigida.
Porquê que sabe melhor estar na praia quando sabemos que temos de estudar? Esta pergunta é pessoal.
Porquê que o fruto proíbido é sempre o mais apetecido? Será por isso que a maçã é um fruto tão bem visto entre nós?
Agora uma última pergunta: por que raio estou a escrever quase às escuras? A resposta não é óbvia, uma vez que a EDP não tem razões de queixa (pelo menos na minha residência permanente).
Tudo isto se pode resumir ao desejo de ter uma consulta psicológica à pala, mas não é. Não quero criar emprego sem ordenados. Já lá foram os tempos em que existiam escravos.
Sem mais,

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Diário de Viagem: Instância terceira - uma filosofice

Tenerife, 20 de Setembro de 2010
É, finalmente, o dia da partida. Não é que importe o sítio para onde se vem, não é que obrigue o coração a pedir mais, mas é, por certo, aquilo que a alma solicita: o regresso onde fomos felizes e onde nos sentimos confortáveis. Espanha é fria de mais. Nem por ser este o arquipélago onde Saramago escolheu viver que as coisas são diferentes. Tenerife é praia escura, mar revolto e uns hotéis de artifício, eficientes, europeus por demais. É assim as férias dadas ao luxo e ao conforto humanos. E não era nada disto que eu vim escrever. Ia-vos dizer, caros amigos, que tenho pena de não ter escrito mais durante as férias. Só me lembrei do computador, a bom paleio verdadeiro, há uns dois dias atrás, embora a vontade de me lançar sobre as linhas tenha aparecido antes, quando a caneta pedia, entre os dedos, umas linhas mais fartas que uma firma e um número de quarto. Foi pena. Mais sobrará para o que ainda vem e o que ainda resta. Para o solo que irei pisar, daqui a umas horas, completamente luso e de sangue estranhamente saudosista. Sinto falta de Portugal. E precisava escrevê-lo, aqui e agora.

A cascata artificial, fria, faz barulho, ali ao fundo. Oiço gente de todas as línguas como pano de fundo. Tenerife é isto: um luxo artificial em jeito de esperanto. Aqui ao lado, na costa, paira a África Negra, feito de Senegal e outros demais negrismos que chamam a isto tudo de futilidade. Não que me tenha ocorrido, assim de repente, uma Floribella à cabeça, mas também penso nesse tipo de mundialidades e discrepâncias térreas. Não temos nada mais que ele, em termos substanciais à Humanidade que possuímos em igual peso e medida. Temos a mais de artificial. Como a cascata que plantaram, lá longe, no meio do hotel para ficar belo. A beleza é um artificio, na verdade. Artificial é, reparemos, tudo aquilo que se inventa para nos dar conforto e distanciar dos outros. Aliás, o conforto é artificial. Artificial é o acessório, o secundário e o relativo. É tudo artificial. A língua que nos popula as bocas, e nos torna diferentes por remédio sólido, é artifício. Não acredito que alguém concordo com estas linhas escrita à pressão nem que tomem isto como algo fulcral. Mas saiu e cresceu de dentro de mim. É artificio, também. 

Há cadeiras. Que são postiças coisas. Há água doce, metida em tanque, que nem ferve nem anda como na sua natural situação. É postiça, portanto. Há gente, vestida, cheia de coisas acessórias. São postiças, deduzo já. E cartas. E carteiras. E um computador. E uma bateria que vai findar, se não vos termino isto a tempo de ir almoçar.
Estou quase a partir. E isso, bem vistas as coisas, artificial ou não que seja, consegue-me agradar profundamente. 

Sem mais,
Luís Gonçalves Ferreira

Diário de viagem: instância segunda - a saudade

Tenerife, 18 de Setembro de 2010 
Não é que o tempo importe nem que o relógio abrande, mas sinto vontade de regressar a ti, neste instante. Tenho sentido que a tua falta me torna mais frágil e instável. O sol quente, que não fere a pele cor-de-chocolate, abranda o frio que me consome quando te recordo. Tenho vontade de, ao primeiro instante no regresso, me revelar a ti, por completo. Sei que resposta me darias. E sei o que me confessarias. É por isso que me contenho e penso: já disse tudo e não me cabe dizer mais nada. É essa a verdade a que me tenho de prender. 
Espero por ti, invariavelmente, no teu leito dia sobre dia, perto como longe, no sol e na chuva, sempre num relento, de brisa, que se chama amor. Não sei quando isto vai terminar, até porque consigo possuir segundos, horas e até dias que me contento com a tua amizade. Os momentos de desprazer e fragilidade fazem-me recordar tudo o que passamos juntos... tudo o que sonhamos juntos. 
E com isto, às últimas horas do antepenúltimo dia de férias, apetece-me, pela primeira vez, debitar sal e reconstruir catedrais. Sal que são obra de lágrimas. 

Sem mais,
Luís Gonçalves Ferreira