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sábado, 24 de abril de 2010

Torno-me puro no bater das tuas asas

No suave bater das tuas asas,
Longínquas, fartas, apaixonadas,
Sinto que chegas.
Vens e vagueias-me a alma,
Louca, perversa.
Serpenteias-me e dominas.
Torno-me puro ao ver-te,
Neste sonho.
Nascem gritos que me aquecem.
Gemidos que me queimam.
Forças que me acalmam
O Calafrio da saudade.
Farto. Repleto. Chegas,
Numa aura que brilha
E acalenta...
Não!
Não! Não vás.
Fica. Abri-te o coração.
Não partas.
Nem penses que escapas.
São os olhos da alma que te viram,
Escolheram. São eles que te sentem.
Serão eles que te sepultarão.
Nem que seja, lá longe,
No último suspiro das nossas almas.
Somos um. Para sempre.
É nosso este fardo: Um fado
De amar loucamente e estar ligado,
Para sempre.
Para todo o Sempre.
Fica.
Eu prometo-te:
Serei sempre teu.
Luís Gonçalves Ferreira
24 de Abril de 2010

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Fatalidade Conjugal

Eras a catraia dos contos de «Era uma vez...». Sempre o senti. Respiravas e transpiravas especialidade, originalidade e beleza natural. Estavas morena, tom que sempre apreciei. Eras média, tamanho que sempre me enlouqueceu. Tinhas umas mãos bem-tratadas, coisa que sempre me agradou. Falavas em canto pardaleiro, um misto de harpa e violino. Andavas como na "passerelle" floral de uma Primavera qualquer. Sorrias como quem dança. Dançavas como quem sorri. Tinhas tom e toque de donzela, mas genética de empreendedora. Tinhas um discurso fluente, inteligente e consciente. Não dizias bobeiras, nem bobagens. Amavas como quem canta "karaoke".

Eras amada de um jeito especial, quero que saibas. Após o 'terminus' fatal, tornei-me frígido e distante. Nunca senti nada assim. Aliás, acho que nunca sentirei nada por alguém assim. Um misto de consciência da distância com prazer de recordação. Eu amo-te, nunca duvido disso. Mas não sou capaz de te amar a 100%. Valorizo-me e sei os meus limites. Sei que mereces infinitamente mais do que este corpo, tantas vezes insuficiente, até i-libido. Não há Viagra psicológico que possa salvar este nosso status amórfico.

Eu e tu somos únicos. Qualquer ser humano que se preze afirma-se assim. Nós somos impecáveis, mas equidistantes. Fomos afastados pelos condicionalismos naturais. Foi, com certeza, um Deus matemático ou arquitecto que nos precipitou nesta vala. Transportou-nos para cenários paralelos, sem encontros informais. Não há cafés, nem cinemas, nem discotecas, que nos retirem esta clausura artificial. Vivemos assim, como alguém quis.

Não desvalorizamos as diferenças ou não fomos capazes de valorizar as semelhanças. Estamos um para o outro como a Coca-Cola para a Pepsi, como o Burger King para o Mc Donald's: os verdadeiros apreciadores sabem que a concorrência é natural, mas de certa forma artificial; há um melhor que outro, são fatalmente diferentes. Nós não conseguimos afastar as medidas da nossa (in)diferença. Vivemos incoerentemente assim. Pelo menos, não nos prejudicamos com as nossas mútuas incoerências. Acho que nascemos para manter este vínculo natural de forma filosoficamente imoral. Não nos deixamos desfrutar.

Luís Gonçalves Ferreira
29 de Julho de 2009

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

A Roberta, depois de uma ronda no Hi5, desceu à Terra e disse:

É fantástico de ser ver toda a pessoa que se dedica profissionalmente à ingestão incontrolada de álcool. É ser-se bêbado sóbrio e bêbado quando se está efectivamente bêbado. A fama tem destas coisas. Gente retirada a ferros das Serras longínquas são dignas de um púlpito sub-urbano numa Casa de Pasto qualquer.
Ainda criticam o Tele-Rural. Esquecem-se que as pessoas e os seus companheiros imaginários tropeçam nas vielas e riem à desgarrada, como seres incontroláveis de tão torpes que são. Os músculos descontrolam-se e as faces ficam rosadas, tal e qual o Zé Povinho do Bordalo Pinheiro.
O vinho chega a casa e discute com a mulher e com os filhos. O vinho chega a casa e senta-se como um porco em frente ao televisor. Não vê nada. Está bêbado e analfabeto como quando saiu do trabalho para a tasca da esquina. O vinho chega a casa e faz sexo à porco com a sua querida e subtil vaca submissa. É o cio dos Homens e a escandaleira das bibliotecas confessadas, no século passado,  pelo Vaticano. 
O vinho cobre aquela sadia porca e cobrirá porcamente outras tantas porcas que se lhe adicionarão aquela pérfida e imunda pocilga.


Roberta Paliativa